No Corredor

Um pequeno conto que escrevi hoje mais cedo, para dar uma movimentada aqui no cantinho.


                Apertei o botão metálico à minha frente , um de um par de gêmeos indênticos, e me pus a aguardar.
                Olhei para os lados e observei o corredor todo pintado cor de creme escuro, iluminado com lâmpadas de luz branca postas em intervalos aparentemente regulares. Ao chão, um rodapé de madeira lustrada e um piso de pedra amarelada cortada quase à largura completa de parede a parede, contornados por molduras de granito delimitando quadrado após quadrado por toda sua extensão.
                Não era um lugar feio e o quê de antigo adicionava um chame extra ao interior do prédio. As portas de madeira pintadas de branco só reforçavam a sensação de que eu estava de volta no tempo até uma época saudosa e bela que só conhecia através dos muitos livros que li.
                O visor do celular na minha mão acendeu-se em resposta ao botão pressionado em seu teclado e vi que já divagava ali por quase dez minutos. Fiquei surpreso pelo tempo ter passado tão rápido, mas ao mesmo tempo não pude deixar de indagar quanto mais teria que esperar.
                Diante da ausência de qualquer reação à minha frente, deixei a mente voar livre novamente. Pensei nos problemas econômicos e no tabuleiro novo do jogo que eu queria comprar, na fome na África e no que comeria no jantar. Pensei em como aquele corredor parecia tanto cenário de um conto de terror.
                Quase podia ver o corpo incorpóreo, pálido como uma folha de papel vegetal, deslizando suavemente em minha direção. Os cabelos esvoaçantes levantados por algum vento espectral que nenhum mortal poderia sentir naquele interior sem janelas eram negros como as algas no fundo abissal dos oceanos. Suas vestes não mais do que uma malha mortuária branca, ou talvez um lindo vestido estimado por sua dona, mas tão deteriorado pelos vermes e microorganismos que já não passava de trapos puídos e feios. As mãos esqueléticas pareciam feitas apenas de osso e pele, como se as larvas brancas em seu caixão só tivessem comido sua carne, com cuidado para não rasgar-lhe a pele sedosa que tantos homens desejaram tocar quando ainda estava rosada pelo sangue quente correndo dentro das veias e artérias.
                E seu rosto, ah, seu rosto! Uma caveira aterradora com dois buracos negros no lugar dos lindos olhos que com certeza teve, e sem qualquer sinal dos seus grandes e brilhantes cílios. Os lábios, antes finos e rosados em um leve contraste com a alvidez da pele, agora estavam comidos, revelando um interminável sorriso macabro como se a própria morte não fosse mais do que uma piada maligna.
                Não tinha unhas nem sapatos. Também não precisava deles, pois seus pés finos de moça mal tocavam o chão.
                Pensei, pelo jeito que se balançava em minha direção, que talvez tivesse morrido enforcada, mergulhada no pesar de uma paixão trágica, quem sabe amando perdidamente o único homem no mundo que não largaria tudo para estar ao seu lado.
                Talvez…

                Por fim o barulho da campainha chegou aos meus ouvidos, trazendo-me de volta à realidade. O corredor estava mais uma vez vazio e eu entrei no elevador para descer ao térreo e seguir em direção ao meu destino.

A Cidade – pt3

 Antes que eu pudesse reagir de qualquer forma, as esferas brancas se fecharam e ela se virou. A silhueta escurecida pelo forte brilho do sol diminuiu enquanto descia as escadas e se afastava, até desaparecer de vista e me deixar sozinho com o cadáver sagrado que dividia o altar comigo.
 Olhei novamente para a figura no palco, fruto daquilo que com certeza havia sido um show de horrores. Era macabra a exatidão com que aquilo parecia reproduzir o sacrifício na cruz, um tipo de alegoria sinistra e desfigurada.
 Quanto mais eu olhava para a imagem, mais sua presença crescia no ambiente, me pressionando contra mim mesmo, esmagando e tirando meu ar. Ela ocupava cada canto da Igreja e enquanto eu me virava para fugir dela, senti que continuava atrás de mim, sempre grande e ameaçadora.
 O corredor central pareceu duas vezes maior do que quando o percorri na entrada. Com passos largos e frequentes olhadas por cima do ombro, percorri assustado as fileiras de bancos de madeira escura com suas abas desgastadas, acopladas atrás para os fiéis se ajoelharem.
 O ar estava pesado e espesso. Era difícil puxar o suficiente para encher os pulmões e por um pequeno momento me lembrei dos olhos fora do carro. Eles também pareciam roubar todo o oxigênio da atmosfera e deixar apenas o medo gasoso que penetrava cada poro de minha pele.
 Olhei uma última vez para trás, antes de cruzar o grande portal que levava para fora. Tudo continuava no mesmo lugar que quando entrei e mesmo que nenhuma das estátuas tivesse olhos, todas pareciam me encarar fixamente. Virei e desci as escadas, voltando para a vida da rua e o barulho que parecia não se atrever a entrar naquele templo, respeitoso à solenidade do local. Pouco tempo havia e passado desde que entrei, em torno de dez minutos, embora tivesse parecido mais. Olhei para os lados, ainda um pouco ofuscado pela claridade da manhã.
 Não me restava outra opção senão voltar para o hotel. Depois daquilo, não me sentia confortável para fazer turismo por aquela cidade. Meu estômago nunca foi fraco, muito pelo contrário. Nos anos em que exerci a advocacia, diversas vezes me vi de frente com cadáveres, algumas no Instituto Médico Legal, outras ainda no próprio local do crime. E, no entanto, aquele havia impactado de uma forma que nenhum dos outros tinha conseguido. Selvagem e ainda assim civilizado, um símbolo e um homem ao mesmo tempo. Era totalmente diferente dos crimes por interesses ou por paixões.
 Enquanto andava, meio concentrado em não me perder e meio distraído com a imagem que não fugia da minha mente, finalmente me vi diante da fachada do Hotel Bartimeu mais uma vez.
 Subi para o quarto e abri a porta cuidadosamente para não acordar Abraão, que, para a minha surpresa, não estava lá deitado na cama. Era cedo demais para ele ter acordado, por isso supus que tivesse ido ao banheiro.
 Sentei-me na minha cama e inspirei fundo. A janela aberta deixou entrar um pouco de um vento refrescante que me fez perceber, só então, como as coisas estavam fora de lugar. Eu não tinha aberto a janela quando saí e o par de sapatos que deveria estar arrumado atrás da porta não estava lá.
 “Abraão?”, chamei em voz alta, enquanto me levantava e andava rápido até a porta fechada do banheiro. Não houve resposta. Bati com o nó dos meus dedos sonoramente na madeira que dividia os dois cômodos, mas ainda não ouvi qualquer reação vinda lá de dentro.
 “Eu vou abrir a porta, hein.”, eu disse, esperando que, por mais sonolento que ele estivesse, com isso pelo menos desse sinal de sua presença, mais ainda assim não veio nenhum. Girei a maçaneta e empurrei, encontrando um banheiro escuro e vazio. Deixei a porta como estava e saí do quarto, descendo as escadas até a recepção.
 “Alô. Oi. Bom dia!”, eu chamei, tentando atrair a atenção da moça que trabalhava ali. Quando finalmente consegui, perguntei. “Meu amigo parece ter saído. Ele falou alguma coisa quando passou por aqui? Nós estamos no quarto 203.”
 “Quarto 203? Deixe-me ver aqui…”, ela falou, e começou a mexer em alguns papéis por trás do balcão. Eventualmente pareceu encontrar o que procurava e se levantou. “Aqui está, ele deixou um recado quando saiu.”
 Peguei o papel com ela e li. Era um bilhete simples, sem muito escrito, algo que ele rabiscou rápidamente enquanto saía. Nele ele dizia que tinha ido para a biblioteca começar a pesquisa bibliográfica.
 Ainda surpreso por causa da saída inesperada de Abraão, decidi ir atrás dele na biblioteca, mas antes subi para o quarto para colocar de volta o sapato que eu tinha trocado por chinelos assim que tinha voltado da caminhada matinal à Igreja.
 Peguei as direções para chegar aonde queria com a moça da recepção e fui. O sol estava mais alto no céu, mas não estava tão quente. Nem parecia o mesmo país que eu me lembrava de viver em. No fim das contas os gigantes de concreto que eram as cidades grandes faziam mesmo uma grande diferença. Nessas horas dava até vontade de me mudar para uma cidadezinha pequena como essa.
 Mas não essa, com certeza. Tinha algo de errado nela, algo de muito errado, e quanto antes a gente fosse embora, melhor. O problema era deles se queriam praticar esses ditos atos religiosos, um tanto excêntricos, e eu não queria ter nada a ver com isso.
 Não foi difícil de encontrar o lugar. A construção ocupava todo um bloco e parecia ser bem antiga, mas habilmente conservada, bem maior do que se esperaria de uma cidadezinha como aquela, com certeza. Na verdade a coleção de livros ocupava apenas uma parte do prédio, no térreo, e no andar de cima ficava a prefeitura.
 A bem da verdade era uma biblioteca que não perdia em nada para muitas daquelas das grandes cidades. As estantes ocupavam quase todo o espaço, grandes e imponentes, de madeira clara, com aproximadamente dois metros de altura e muito mais do que eu conseguia precisar de largura. Cada uma ia de um lado ao outro do salão, formando enormes corredores paralelos. Ao fundo, uma pequena porta, também de madeira, levava ao que uma placa indicava ser a sala de restauração.
 O teto ia até muito acima da minha cabeça, branco, e dele pendiam grandes luminárias douradas. As paredes seguiam pintadas com a mesma cor, com detalhes em gesso e as janelas eram enormes retângulos, começando a aproximadamente um metro do chão e subindo até quase alcançar o topo da construção.
 Na lateral, sobre todo o carpete vermelho escuro que cobria o salão, estava o gabinete do bibliotecário seguido por pequenas mesas quadradas, com cadeiras sem acolchoamento, onde em uma delas encontrei Abraão sentado. À sua frente, duas pilhas com grandes volumes encadernados quase tornavam impossível detectá-lo de muito distante.
 “Não esperava vê-lo de pé tão cedo assim.”, falei enquanto puxava uma cadeira.
 “Oi?”, ele perguntou, enquanto levantava a cabeça. Estava tão absorto na leitura que mal percebeu que alguém havia chegado e estava falando com ele.
 “Você. Desde quando acorda tão cedo assim?”, perguntei.
 “Ah, sim. Acabei me acostumando depois que Duda nasceu. Ela parecia um despertador, chorava todo dia às cinco da manhã.”, ele respondeu, esfregando o olho direito com o dedo para afastar parte do sono que ainda restava. “Não que eu não goste mais de dormir, mas achei que seria um desperdício fazê-lo quando poderia aproveitar o tempo de uma forma tão melhor. Quando foi mesmo que você chegou aqui?”
 “Exatamente agora.”, falei, e não disse mais nada, dando a oportunidade que sabia que ele esperava para voltar a mergulhar profundamente na leitura.
 Fiquei quieto ali por um tempo, olhando para os livros em cima da mesa, enquanto pensava em coisas aleatórias, mas logo um chamou a minha atenção e peguei para dar uma olhada. O título não era grande coisa, só algo sobre a história e cultura de Ponta dos Observadores. A capa que fazia todo o trabalho.
 Indescritível a sensação que aquela pintura passava, era chocante que pudesse ser tão bem feita e também tão estranha. Ela retratava um indígena deitado na praia, com seus braços abertos estirados na areia e, o que mais se sobressaía, dois buracos negros no lugar dos olhos.
 Logo em uma das primeiras páginas, achei uma nota do autor em que ele explicava seu fascínio pelas tradições indígenas locais e que havia nascido e sido criado ali. Por fim ele agradecia ao artista, um tal de Pedro Roomerus, que havia retratado com tanta precisão e beleza o ritual funerário local.
 Por um momento fiquei ali encarando o papel, processando as informações, mas não tardei a correr pelo índice e abrir no capítulo sobre a religião e suas cerimônias.  
 Ele começava falando sobre as festividades, como a de colheita e a que comemorava o meio do verão. Também havia rituais de passagem para a maioridade para ambos os sexos e sacrifícios para os deuses. Por fim, como que seguindo a ordem natural da vida, ele chegava ao ritual de entrega do espírito das pessoas às divindades. A morte.

 Nem sempre tudo começava com um simples falecimento. A Morte era parte do panteão local e como todos os deuses, recebia sua parte dos sacrifícios. No entanto, era um dos mais cruéis de todos os seres supremos, implacável e por isso exigia que suas oferendas fossem sempre vidas humanas. Quando dadas de bom grado, deixariam o algoz supremo satisfeito e, portanto, ele não voltaria rápido para buscar saciedade.
 Embora fossem situações diferentes, o ritual seguia o mesmo roteiro, onde tudo começava com o preparo do corpo, que devia ser rápido. A Morte não esperava a comodidade ou o luto dos humanos e começaria a recolher aos pouquinhos o corpo do falecido e este estaria eternamente amaldiçoado se não estivesse no local sagrado quando isso acontecesse.
 Portanto, o corpo era lavado e levado ao sacerdote para que seus olhos fossem retirados. Ninguém deveria ver a Morte, nem mesmo os mortos. Depois disso, novamente o corpo era limpo e finalmente levado à praia, onde era posto de frente para o mar, com os braços abertos numa forma semelhante à de um homem crucificado, com as órbitas vazias abertas.
 Não era um funeral elaborado nem complexo. O corpo simplesmente era carregado e deixado na praia sem os olhos, mas durante todo o caminho, enquanto dois homens escolhidos carregavam o morto, o sacerdote entoava os cantos que acreditavam dizer à Morte que estavam prontos para entregar-lhe o que era dela.
 À família só era permitido participar nos casos de sacrifícios, para demonstrar a boa vontade do povo. No falecimento, temia-se que o luto atiçasse a ira da divindade mais do que poderia ser benéfica a presença.
 Era interessante, ressaltava o autor, como não havia quaisquer diferenças no ritual, independente de quem fosse o morto. Mesmo os sacerdotes e líderes eram igualmente entregues à Morte, sem que nada mais pudesse identificar suas posições de destaque na sociedade além das memórias deixadas com o povo.
 Quando finalmente levantei a cabeça, encontrei Abraão me olhando. Não entendi direito o que poderia tê-lo distraído e por isso olhei ao meu redor, mas não encontrei nada.
 “O que foi?”, perguntei.
 “Não sabia que você gostava tanto assim de história.”, ele respondeu.
 “Com certeza não chego aos seus pés, mas gosto um pouco.”, comentei.
 “Certo. Você já terminou com o livro?”, ele falou e percebi que aquele era o ponto. Ele estava precisando do livro, mas eu estava tão absorto na leitura que não quis me atrapalhar e por isso ficou esperando.
 “Ah, desculpa! Aqui, toma.”, eu disse, entregando o livro.
 Depois disso, passei o dia inteiro lendo um romance que peguei em uma das prateleiras, sobre um garoto à deriva no oceano com um tigre de bengala, que no fim das contas se revelou uma leitura extremamente agradável.
Fiz uma pausa para o almoço, sozinho, e quando voltei Abraão continuava imóvel na cadeira. Peguei de volta o livro do tigre e continuei de onde tinha parado. Uma pena não ter conseguido terminar de lê-lo no mesmo dia.
 Foi em torno das dezessete horas, o bibliotecário finalmente se levantou, pela primeira vez desde que eu tinha chegado, e caminhou até a nossa mesa. Reparei que éramos os únicos restantes em todo o salão. Conforme se aproximava, reparei em como ele parecia destoar do local com sua calça jeans desbotada e uma camisa simples, preta, sem quaisquer estampas.
 “Vão embora, a biblioteca está fechando.”, ele falou quando chegou perto, com uma cara de desagrado.
 “Como?”, retruquei, sobressaltado com aquilo. “Ainda são quatro da tarde!”
 “Em Roma ajam como os romanos. Agora vão embora.”, ele respondeu, e se abaixou para pegar a pilha de livros de Abraão, deixando sua brilhante careca exposta.
 “Espera, espera!”, interviu de repente Abraão. “O que está havendo?”
 O bibliotecário, que alias o crachá no peito indicava se chamar Maurício Gonzales, levantou a cabeça ligeiramente, com uma cara que dava a impressão que o simples fato de estarmos ali já irritava demais, quanto mais fazendo perguntas idiotas
como aquelas. Claro que ele não conhecia o traça de livros que nem e por isso não sabia que ele realmente não tinha escutado nem uma palavra do que havia sido dito.
 “Hora. De. Ir. Embora.”, ele repetiu, pausadamente e raivosamente. “A biblioteca está fechada.”
 “Ah, mas que coisa… Fecha tão cedo!”, Abraão se lamentou. “Mas acho que não tem jeito então. O senhor poderia pelo menos manter esses livros separados para quando eu voltar amanhã?”
 “Não.”, ele respondeu, e se afastou carregando os grossos volumes encadernados para seus lugares nas prateleiras. Ficamos sentados por alguns segundos perplexos com a rispidez e falta de educação daquele homem, mas logo nos recuperamos e fomos embora.
 Deparamo-nos com uma rua deserta, como a do dia anterior. Nenhum dos comércios estava aberto e nem uma alma rondava as ruas para ser vista. Aquela brisa gelada voltava a circular por entre as ruas vazias, fazendo com que meu corpo todo tremesse involuntariamente por um instante.
 “Que surpresa agradável. Vieram conhecer nossa biblioteca?”, perguntou atrás de nós, me assustando, uma voz que reconheci como sendo a da Prefeita. Virei-me para olhá-la.
 “Realmente.”, comentei, com a voz sóbria. “Não só viemos conhecê-la, como seu acervo também.”
 “E o que acharam, se me permitem perguntar.”, falou, com uma polidez que chegava a destoar.
 “É incrível.”, respondi. “Não perde em nada para as que já vi nas grandes cidades.”
 “Bom ouvir isso. Ela é o nosso orgulho.”, a prefeita disse. “Aliás, ainda não fui apresentada ao seu amigo…”
 “Me chamo Abraão.”, ele disse, finalmente entrando na conversa. “É um prazer conhecê-la, senhora Prefeita.”
 “Sem necessidade para essas formalidades, aqui é só uma cidadezinha do interior. Pode me chamar de Margareth.”, ela falou, sorrindo.
 “Certo.”, Abraão disse. “Sua biblioteca realmente está de parabéns. Minha pesquisa sobre as tradições locais não teria avançado nem metade do que consegui hoje se não fosse por ela, Margareth.”
 “Oh, então você veio para conhecer mais sobre as tradições? Ora, por que não disse antes?”, ela fez uma cara surpresa enquanto falava. “Vou levá-lo para conhecer o que nenhum livro pode expressar. Agora mesmo na Igreja o povo deve estar reunido para a cerimônia do crepúsculo, aposto como você vai querer ver isso!”
 Tive a sensação de que meu sangue tinha parado de correr por uma fração de segundo quando ela mencionou a Igreja. O que será que fariam lá? Isso era mesmo suspeito ou era mero efeito da aura opressora que eu tinha presenciado naquele lugar?
 Não tive tempo de intervir antes que Abraão aceitasse a oferta.
 “Você também vem, Gustavo?”, Margareth virou para me chamar.
 “Ah, me desculpa, eu vou voltar para o quarto do hotel. Estou um pouco cansado depois de ler tanto o dia todo.”, dei a desculpa e ninguém insistiu. Os dois caminharam para longe, trocando informações sobre os aspectos da religião local enquanto eu me virava e voltava para o Hotel Bartimeu.
 Caí na cama assim que cheguei, mas não dormi imediatamente. Ainda estava cedo e ainda estava claro lá fora, mas não entrava pela janela nenhum som que indicasse vida naquela cidade, fora os sinos da Igreja que começaram a tocar em algum momento e pararam logo depois de alguns minutos.
 Entediado, acabei por finalmente fechar os olhos e dormir.
 Só acordei no dia seguinte, num quarto tão vazio quanto o que eu havia me deitado. Tinha certeza de que Abraão estava na biblioteca de novo, afinal já havia amanhecido há tanto tempo que quase não era mais manhã.
 Era um pouco incomum eu dormir tanto, mas nem por isso ruim. Fiquei preguiçosamente deitado por mais um bom tempo, até que decidi comer alguma coisa. Andei até um restaurante próximo ao hotel esperando encontrar alguma sobra do desjejum, para encontrar o local surpreendentemente já lotado. Demorou uma fração de segundo para que eu processasse aquela quantidade toda de gente almoçando antes mesmo das onze da manhã, mas logo dei de ombros e segui para me juntar a eles.
 A comida era muito boa, mas aquela quantidade toda de gente me incomodava. Todos que iam e vinham pareciam esconder algo por baixo de seus semblantes e eu me remexia inquieto na cadeira. Como não dava para saber pelo rosto quem seguia aquela religião local, era quase como se todos eles fizessem parte de uma enorme histeria coletiva, todos cúmplices de um massacre de séculos de duração e eu me sentia cada vez menos confortável em estar entre eles.
 Terminei minha refeição mais rápido do que a maioria dos médicos recomendaria para uma boa digestão, mesmo os mais displicentes, e voltei para o quarto. Li um pouco um livro de bolso que eu tinha trazido comigo, um clássico da literatura francesa sobre traição e vingança, mas não consegui me distrair por mais do que umas duas horas.
 Olhei para o relógio que ainda marcava poucos minutos antes das duas horas da tarde e, embora não estivesse calor nem eu estivesse muito suado, decidi tomar um banho extra além dos já planejados, só para passar o tempo.
 Quando terminei, me joguei na cama e pensei que precisava ir embora logo daquele lugar. Em vez de um descanso relaxante eu estava passando pelo mais profundo tédio trancado naquele quarto de hotel e quando saía para procurar qualquer coisa para me distrair, me sentia acuado pela presença daquele culto.
 Pensei na viagem de vinda e lembrei dos olhos de madrugada me espiando. Um calafrio subiu pela minha espinha e pude quase que vê-los na minha frente novamente. Minha mente trouxe instantaneamente outra imagem que se conectava quase que perfeitamente com aqueles olhos: A Prefeita me olhando à distância, na entrada da igreja.
 Não eram exatamente os mesmos olhos, mas o jeito como o ar ficava mais espesso ao seu redor e a sua presença… Eram idênticos, e não consegui mais afastar esse
pensamento da cabeça, por mais que inicialmente parecesse só coisa da minha imaginação.
 Em pouco tempo estava me arrumando e indo até a biblioteca para procurar por Abraão. Era melhor irmos embora antes que alguma coisa acontecesse. Eu não tinha a intenção de provocar aquelas pessoas, mas como eu poderia saber o que era provocação e o que não era numa cultura como aquelas?
 Vi poucas pessoas pela rua enquanto caminhava rapidamente, mesmo ainda nem sendo três da tarde. Quando finalmente cheguei à biblioteca, notei que ela já estava encerrando as atividades do dia.
 “Oi, espera!”, eu falei, chamando a atenção do bibliotecário que já trancava algumas portas.
 “Estamos fechados.”, ele falou, no mesmo tom mal educado de antes. “Vá embora.”
 “Droga, dá para ver que estão fechando, eu só quero perguntar se você viu uma pessoa.”, eu falei, irritado com a rispidez gratuita daquele homem. “É o meu amigo, ele esteve comigo aqui ontem.”
 “Como você espera que eu lembre de alguém assim? Eu vejo pessoas demais para lembrar de um cara qualquer.”, ele disse, se virando.
 “Olha aqui.”, eu disse, finalmente perdendo a paciência e fazendo com que ele se virasse para me encarar. “Nós fomos os últimos a sair. Se não vai me ajudar então pelo menos não desperdice meu tempo falando aqui com você.”
 “Você que está desperdiçando o seu tempo vindo falar comigo.”, ele falou.
 “Merda!”, eu exclamei, empurrando o homem para trás com tanta força que ele caiu no chão.
 Eu não estava tentando arrumar uma briga, por mais que parecesse ser exatamente o contrário. Talvez fosse a tensão que tivesse feito meu ânimo ficar tão exaltado assim, não sei ao certo, mas me virei para ir embora e continuar a procurar por Abraão e por isso não vi quando o bibliotecário me acertou nas costas, jogando meu corpo para frente, de cara no chão.
 Consegui virar a tempo de vê-lo avançar novamente contra mim e acertei as duas pernas em sua barriga, aproveitando o ímpeto de sua corrida para projetá-lo por cima de mim. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido.
 Fiquei de pé e cheguei perto do homem que tentava se levantar. Chutei seu rosto, perto do queixo, e ele desmaiou ali mesmo. Continuei por algum tempo ali, ofegando com a adrenalina correndo rápido pelas minhas veias, e então os sinos da Igreja começaram a tocar, me lembrando do que tinha que fazer.
 Foi como se as badaladas surgissem do nada e por um momento eu tive certeza de que era para lá que eu deveria ir. Como se soubesse que não encontraria meu amigo em lugar nenhum daquela cidade, só na Igreja.
 Voltei a andar, agora pelas ruas de uma cidade deserta, por onde ecoava o som forte dos sinos e um vento gelado insistia em soprar. Andei até o hotel Bartimeu primeiro, mas o quarto estava vazio, como eu temia que iria encontra-lo.
 Encarei brevemente a torre do santuário daquele culto pela janela, e ela pareceu encarar de volta. Não demorei para andar até lá, andando sem nem me preocupar com carros ou com multidões, pois não havia nem um nem outro.
 Empurrei com força as portas enormes de madeira para abri-las e conforme a fresta ia se alargando para me dar passagem, o som de um coro sinistro chegou aos meus ouvidos. Vozes graves e masculinas, como se fosse uma versão deturpada dos cantos gregorianos fizeram vibrar os meus tímpanos e um calafrio que nem mesmo o vento gélido trouxe, subiu pela minha espinha.
 Segui em frente.
 Parecia que a cidade inteira estava reunida sob o brilho dourado, todos sentados nos bancos de madeira com seus olhos voltados para mim. Somente a Prefeita, no primeiro banco continuava olhado para frente e por isso se destacou da multidão, facilitando que eu a reconhecesse.
 “Margareth!” eu chamei alto, quase gritando. “PREFEITA! Não está ouvindo?! Você sabe muito bem por que eu estou aqui!”
 Eu falava enquanto me aproximava, até finalmente encostar a mão em seu ombro direito e fazer com que se virasse.
 Seus olhos estavam fechados, mas eles foram se abrindo lentamente mostrando um tipo de paixão por trás dele que ardia forte. Se eu não fosse tão cético, diria que estava possuída. Ela me olhou e eu a olhei de volta, até que algo me acertou com força ao lado da cabeça e fui atirado ao chão.
 Olhei para cima e o bibliotecário estava ali, com o rosto sujo de um misto de poeira e sangue que havia escorrido de seu nariz e ódio estampado no rosto. Me joguei contra ele, curvando seu corpo e jogando-o no chão. Sua cabeça bateu forte contra o chão, mas ainda podia sentir seus punhos me acertando nas costas. Golpeei cegamente seu rosto algumas vezes, até que finalmente senti que ele parava de resistir.
 Não parei para ver o estado do homem, só me virei para olhar a Prefeita, que novamente encarava o altar com seus olhos fechados, como se não houvesse interrupção qualquer. Ao meu redor os inúmeros fiéis seguiam seu exemplo e agora nenhum deles me olhava, com exceção do Delegado.
 Parado à minha frente, o velho de feições duras levantou uma lata de spray que logo descobri ser de pimenta enquanto meus olhos inchavam ardendo, fui nocauteado por trás. Não cheguei a ver nem sentir o chão que acertei.
     ***
 Acordei numa posição estranha, com meus braços latejando. Senti uma dor excruciante no meu braço direito e em seguida outra no esquerdo. Tive tempo o suficiente para ver toda a multidão na Igreja, de frente e soube estava no altar, antes de desmaiar novamente por causa da dor.
 Não sei quanto demorou para eu recobrar os sentidos novamente, mas os fiéis continuavam lá.
 Abri meus olhos e como que em resposta, um homem encapuzado se adiantou. Ele chegou bem perto e eu tentei recuar, mas meus pés não tocavam no chão. Eu estava preso à cruz no altar, despido, e era o centro daquela cerimônia.
Tentei chutar, mas meus pés estavam amarrados. Não havia nada que eu pudesse fazer, enquanto o homem se aproximava para o que eu já suspeitava que seria o próximo passo do ritual. Eu era o sacrifício para a Morte e não poderia vê-la quando ela viesse.
 A última coisa que vi foi o rosto do homem enquanto ele retirava os globos oculares de minhas órbitas. Abraão me encarava friamente, fazendo seu trabalho metodicamente para que a celebração fosse bem sucedida.
 No fim das contas, nunca vi a Morte chegando. Mas ela veio.

A Cidade – pt2

 Para minha sorte, chegamos à cidade de Porto dos Observadores enquanto anoitecia. Não acredito que iria conseguir dormir outra noite dentro do carro.
 Na fraca luz do ocaso, andamos devagar com o carro pelas ruas de paralelepípedo, chegando finalmente à principal da cidadezinha. Era mais larga que as outras e dava para dois carros andarem lado a lado em cada mão. Procurávamos o hotel onde Abraão havia feito a reserva.
 De longe eu podia ver a construção mais alta da cidade se aproximando lentamente, uma igreja construída em estilo barroco. Toda branca com detalhes em pedra, tinha duas torres coladas à parede frontal com um sino dourado no topo de cada. As janelas eram simples, mas a porta de entrada era imponente, dupla e alta, feita com o que parecia ser madeira das mais nobres. Bem trabalhada, mostrava a imagem de inúmeros anjos com seus cabelos cacheados guardando a entrada.
 Observei tudo isso enquanto passávamos pela frente, e ficou um gosto amargo na minha boca. Tinha algo de errado com aquela igreja, mas eu não sabia o que.
 Passamos direto por ela, indo em frente. Meus pensamentos ainda se arrastaram pela construção por mais alguns segundos, até outra coisa aparecer.
 “Você sabe onde fica o hotel?”, perguntei para Abraão.
 “Não.”, ele respondeu. “É o único da cidade, não pensei que fosse difícil de encontrar.”
 “Não acredito nisso…”, retruquei. Olhei pela janela e só então reparei como aquela cidade parecia vazia. Não havia ninguém nas ruas e eu não lembrava de ter visto uma alma que fosse, agora que parei para pensar.
 “Na verdade eu contava com o plano B de pedir informações a transeuntes, mas parece que esse também foi pelo ralo. Parece uma cidade fantasma isso aqui!”, ele exclamou, lendo meus pensamentos.
 Só que não era uma cidade fantasma. Conforme avançávamos, os postes de luz se acenderam e era possível até certo ponto perceber movimento dentro das casas, embora nem uma pessoa pudesse ser vista nas ruas. Nosso carro também era o único transitando.
 A tensão começou a se acumular dentro de mim quanto mais a gente rodava pelas ruas de pedra e o céu mudava lentamente para um azul marinho que não tardaria a se tornar preto. Corri os olhos pelos arredores, sem saber se tentava encontrar o hotel ou se esperava ver os olhos espreitando novamente.
 “Achei!”, meu amigo exclamou. “Ali está, viu?”
 Olhei para a direção que ele apontava e vi uma construção não tão grande quanto se esperava de um hotel. Era um sobrado, um tanto largo. Dependendo da profundidade poderia ser o dobro, mas aparentemente só haviam cinco quartos disponíveis no tal “hotel” e o que provavelmente seria a recepção no térreo.
 Também não havia estacionamento, por isso estacionamos perto da entrada, no meio fio mesmo. Antes de entrar dei mais uma espiada na fachada, onde podia ler em letras grandes e vermelhas o nome “Hotel Bartimeu” contrastando contra cor azul do fundo. A porta de entrada era de vidro e a recepção era muito bem arrumada, com carpete vinho e sofás cinzas bem aconchegantes para que se pudesse esperar sua vez de ser atendido com conforto.
 Observei que, pela quantidade de espaços no claviculário atrás da recepcionista, o hotel tinha em torno de dez quartos o que parecia pouco se comparado com o que eu estava acostumado, mas com a aparência daquela cidade me perguntei se não era um exagero ter tantos cômodos assim.
 Enquanto eu divagava, Abraão andou até a mesa da recepção e começou a falar.
 “Boa noite, meu nome é Abraão Mattos e eu fiz uma reserva para um quarto para dois.”, ele disse e em pouco tempo estava em suas mãos a chave amarela de metal que abriria a porta para o quarto 203, que era o nosso.
 Subimos pelas escadas, a única opção, e andamos até o quarto. Os corredores também eram forrados com carpete no chão e as paredes pintadas de azul bem claro. As lâmpadas fluorescentes no teto amenizavam os arredores e tornavam fáceis de se ler os números nas portas de madeira escura. Não demoramos muito para achar o que procurávamos.
 Era um cômodo simples. Duas camas de frente para um armário embutido na parede. Do lado oposto à porta havia uma janela com vista para a rua e ao lado da cama mais próxima uma porta que levava a um banheiro minúsculo.
 Escolhi a cama mais distante da janela, acho que ainda como resultado da noite anterior. Novamente dormi a noite inteira sem qualquer sonho. Praticamente fechei os olhos e então reabri, praticamente sem perceber a passagem do tempo.
 Acordei bem cedo, pouco depois do nascer do sol. Ainda eram seis e meia da manhã, mas troquei o pijama por algo melhor e saí para respirar um pouco do ar fresco da manhã, talvez aproveitar um pouco da calmaria antes de chegar a hora das pessoas irem trabalhar. No entanto, para minha surpresa, as ruas já estavam lotadas.
 Não só aqueles indo para o trabalho ocupavam a rua, mas muitos pareciam já estar trabalhando há algum tempo. Será que meu relógio estava errado? Ou era costume ali na cidade madrugar? Estava realmente surpreso e isso transpareceu no meu rosto, o que notei quando cada vez mais pessoas passavam olhando para mim.
 “Bom dia.”, disse de repente uma voz ao meu lado.
 Olhei para o lado, um pouco assustado e me deparei com um senhor de cabelos grisalhos, mas que em nada transmitia fraqueza. Seus olhos eram profundos e vivos e sua postura bem rígida. Vestia-se com uma roupa social e um blazer cinza escuro, sem gravata. Sua voz era profunda e dizia muito mais sobre aquele homem do que sua aparência. Seja lá o que ele tinha passado na sua vida havia esculpido as rugas em seu rosto e deixado uma marca ainda mais profunda nas frases que ele dizia.
 “Bom dia.”, respondi desconcertado. “Posso… hum… Ajudá-lo?”
 Era difícil me fazer hesitar assim. Como próprio da minha profissão como advogado, eu era muito bom em falar e muitas vezes mesmo intimidado conseguia manter a compostura na hora de me expressar. Era uma desenvoltura que já vinha desde a infância, mas que tinha aprendido e desenvolver também ao longo dos anos.
 “Você deve ser um dos visitantes que recebemos ontem à noite, estou correto?”, ele perguntou.
 “Sim.”, falei. Me perguntei se deveria me apresentar primeiro ou esperar que ele o fizesse. “Você é…?”
 “Eu sou o delegado Roberto Patrício. Estou aqui para lhes dar as boas vindas em nome da prefeita.”, ele disse, mas não me senti nem um pouco mais bem vindo. “Ela sente muito por não poder vir pessoalmente, mas mesmo uma cidade tão pequena tem seus problemas.”
 “Ah… Não acho que ela precisasse. Somos só dois visitantes.”, eu falei, sem jeito. “Aliás, eu sou Gustavo de Alcântara.”.
 “Muito prazer, Sr. De Alcântara. É uma tradição da cidade receber nossos visitantes da melhor forma possível. Espero que aproveitem ao máximo sua estadia e saibam que estaremos sempre de portas abertas para recebê-los.”
 “Ah… Muito obrigado.”, respondi.
 “Agora, se você me der licença, pretendo voltar aos meus afazeres.”, ele falou e se retirou. Continuei olhando enquanto ele se distanciava, admirado com a rigidez daquele homem. Ele com certeza carregava com honra a responsabilidade do cargo.
 A visita me incomodou um pouco. Pensei em voltar para o quarto, mas Abraão ainda dormiria por mais um bom tempo então decidi que ia dar uma volta pela cidade.
 Caminhei distraidamente pela calçada. Agora vários carros transitavam pela rua de pedras, alguns novos e bonitos e outros bem antigos, mas conservados. Os semáforos eram bem sinalizados e com os comércios abertos era bem fácil de encontrar o que se desejava. Parei em uma padaria para comprar um café e logo continuei minha caminhada.
 A cidade era realmente muito bonita quando ganhava vida assim. Dava para se ter uma perspectiva totalmente nova das casas com arquitetura antiga e das ruas sem asfalto. Imaginei como deveria ser bom morar aqui.
 Sem que eu percebesse, meus pés me levaram ao longo da rua principal e maravilhado com tudo, mal percebi que o prédio ao qual me dirigia não era outro senão a igreja. Quando cheguei em frente à pequena escadaria que finalmente parei como se atingisse uma parede.
 Subi lentamente cada degrau, quase solenemente, movido pela curiosidade. Parei um momento para observas as grandes portas, mais altas do que duas vezes a minha altura. Os anjos estavam lá, guardando a entrada para o santuário, mas agora de perto pude notar que eles não tinham olhos. Nenhuma estátua naquela igreja tinha, conforme percebi enquanto entrava.
 Andei lentamente pelo corredor principal, olhando toda a riqueza da construção. Altamente detalhada, lindamente esculpida, cada parede parecia contar sozinha uma história inteira, e tudo era coberto por ouro. Anjos, virgens, bebês e até demônios, todos eram dourados, como se dissesse que há amor nos céus para todos, mesmo os mais vis.
 No altar, detalhadamente esculpido, havia uma urna no fundo, e duas portas que ficavam coladas nas paredes laterais. No centro, uma enorme cruz em tamanho real carregava uma estátua crucificada.
 Eu passava pelos bancos de madeira escura e antiga e tudo emanava uma incrível solenidade. Estava imerso nessa sensação de viagem espiritual quando fui trazido de volta violentamente para a terra pela mão delicada que tocava meu braço.
 Era uma senhora que parecia ter aproximadamente a minha idade, com os cabelos negros presos atrás da cabeça e um vestido longo azul marinho de mangas compridas com algumas rendas na cintura e nos pulsos. Seu rosto mostrava pouquíssimas indicações da idade e se passaria fácil por uma moça bem mais jovem se não fosse a aura solene ao seu redor. Mais uma pessoa que parecia digna de respeito nessa cidade.
 “Roberto procurou vocês?”, ela perguntou, com um sorriso afável.
 “Roberto…?”, eu falei. “Quer dizer o Delegado?”
 “Sim, ele mesmo. Pedi que ele levasse a vocês as minhas boas vidas ontem.”
 “Ah, então a senhora é a Prefeita da cidade!”, exclamei. “Muito prazer, meu nome é Gustavo de Alcântara.”
 “Eu me chamo Margareth Gusmão, e sim, sou a Prefeita desta cidade. Fico feliz em saber que minhas felicitações chegaram a vocês. É uma tradição da cidade.”
 “O Delegado mencionou.”, eu disse.
 “O que o traz aqui, Gustavo?”, ela perguntou sorrindo. “É um homem religioso?”
 “Não realmente. Minha família inteira é, mas nunca me senti especialmente atraído pelo místico.”, falei vagamente. “Pelo menos não por nenhuma religião em específico.”
 “Sei.”, ela falou, com a voz bem baixa. A força com que segurava meu pulso aumentou enquanto ela continuou. “Então devo lembrá-lo que esta é uma casa da fé. Cuidado com o que o senhor faz aqui.”
 “Ah. Não vou desrespeitar a religião da senhora e nem de seus conterrâneos, lhe asseguro.”, afirmei, pois me considerava uma pessoa sem preconceitos, principalmente religiosos. Claro que não sabia ainda o que encontraria ali.
 “Será?”, ela retrucou e soltou minha mão.
 Recuei um pouco, não exatamente assustado, mas estranhando aquilo. Me virei e caminhei até o altar, talvez para provar que nada ali poderia me surpreender ou então para fazer alguma reverência respeitosa que mostrasse que ela estava errada. Não sei ao certo o motivo que me fez cruzar mais a grande distância que me separava do palco das cerimônias, mas ao chegar perto notei que estava tudo errado.
 A figura crucificada não tinha olhos também, como eu já esperava depois de ver todas as outras estátuas, mas diferente delas, ele era feito de carne e osso. O sangue coagulado no chão ao seu redor era verdadeiro e ainda fedia a ferro. O homem, de feições indígenas como a grande maioria dos moradores da cidade, vestido como um membro de uma tribo, já estava morto e seus olhos haviam sido retirados. Eu não sabia dizer se antes ou depois.
 Olhei para trás apavorado e contra a luz forte que entrava pela porta escancarada, a silhueta de Margareth me encarava, toda negra e uniforme, mas seus olhos destoantes e bem definidos, vendo tudo.
 “Será…?”, a pergunta ressoou mais uma vez, talvez nunca dita pelos lábios da mulher, mas transmitida pelos olhos penetrantes, destacados contra sua silhueta.  

A Cidade – pt1

 “Merda!”, exclamei, enquanto olhava o sangue começar a sair do pequeno corte na ponta do meu dedo. Deixei a faca em cima da mesa, ao lado da laranja que eu descascava e me levantei para fazer um curativo.
 Andei até o outro lado da sala, onde a caixa de primeiros socorros repousava sobre uma curta prateleira de aproximadamente quarenta centímetros. Ambos eram feitos de madeira, artigos antigos de marcenaria que pareciam já estar ali desde antes de eu nascer e muito provavelmente durariam até depois da minha morte. Tirei o curativo, um pequeno círculo autoadesivo, e colei em cima do machucado.
 Olhei para o relógio preso na parede, cujos ponteiros apontavam três horas e vinte e cinco minutos da tarde. Ainda faltavam quinze minutos para a hora combinada e eu sabia que ele não chegaria atrasado. Abraão nunca se atrasava nem se adiantava, mas estava sempre na hora. Tínhamos marcado de nos encontrar ali naquele dia, embora eu tivesse chegado alguns dias mais cedo por estar de férias no trabalho.
 Sentei-me de novo à mesa e terminei o trabalho com a laranja, cortei-a em pedaços e os comi como se fossem gomos de uma tangerina. Já estava na metade da fruta quando ouvi o barulho da campainha tocando.
 Como esperado, ao abrir a porta logo vi a figura do meu amigo. Baixo e magro, com a franja negra de sempre escorrendo pela testa contrastando com o resto do cabelo curto e vestindo a usual camisa esporte fino xadrez por dentro de uma calça social preta. Por trás dele, a paisagem campestre parecia ainda muito pouco natural aos olhos de alguém como eu que tinha vivido a vida inteira em uma cidade, mesmo já estando nesse pequeno casebre há dois dias.
 “Então você conseguiu mesmo achar esse fim de mundo!”, ele exclamou a me ver abrindo a porta.
 “Não foi tão difícil assim. Mas não foi uma única vez ao longo do caminho que me perguntei se não tinha me perdido.”
 “Como eu disse, é um fim de mundo”, ele repetiu e ambos sorrimos. Apertamos a mão um do outro solenemente e trocamos um abraço com rápidas palmadas nas costas. Era quase um ritual dentro de nossa amizade, esse cumprimento, e sempre que nos víamos depois de um longo tempo nós o repetíamos.
 Em seguida Abraão limpou os pés no capacho e nós entramos pelo estreito corredor branco com chão de madeira lustrosa. Não estava assim quando cheguei, mas me pus a limpar todos os cantos empoeirados nos dois dias em que esperei pela chegada dele. Nunca fui fã de serviços domésticos, mas parecia o mínimo que podia fazer depois de ficar ali de graça.
 “Essa casa é sua?”, finalmente pude fazer a pergunta que tinha rodado minha mente desde que fui convidado. Não lembrava dele ter comentado sobre comprar uma casa de férias nem nada.
 “Não exatamente.”, ele respondeu com simplicidade. “Era de um tio meu que morreu sem deixar filhos.”
 “Ah, entendo. A herança ainda não foi dividida direito.”, falei e decidi mudar logo para o assunto principal. “Você pretende explicar porque combinou de se encontrar comigo aqui?”
 “Depois a gente fala disso. De qualquer jeito não vamos partir hoje mesmo.”, ele comentou distraído. “Quero comer alguma coisa primeiro. O que você trouxe Gustavo?”
 “Algumas frutas e comida instantânea. Mas o que você quer dizer com…”, eu comecei, sério.
 “Acho que não dava para esperar outra coisa de você mesmo!”, ele me interrompeu, sorridente. “Sempre comida instantânea! Não sei como consegue não engordar. Vou no carro pegar as compras que fiz.”
 Pensei em perguntar mais uma vez sobre o motivo dessa viagem, mas ficou bem claro que ele não me responderia, principalmente depois de cortar minha frase na metade e fingir que nada havia sido dito. Não havia jeito senão esperar.
 Saí da cozinha e fui para a sala de estar, onde me sentei em um sofá de pano com estampa listrada vermelha e azul marinha, de frente para uma pequena televisão com uma antena bem antiga em cima dela, que recebia pessimamente qualquer sinal. Não tentei ligar o aparelho, apenas me sentei e fiquei ali, olhando para o nada.
 Depois de algum tempo Abraão voltou e sentou no outro sofá que estava posto perpendicularmente ao meu, formando um ângulo de noventa graus. Ambos tinham três lugares e formavam um L.
 Ninguém falou nada por algum tempo, até que ele quebrou o silêncio.
 “Você já ouviu falar da cidade de Porto dos Observadores?”, ele me perguntou.
 “Nunca.”, respondi.
 “É esperado. A cidade é muito pequena e não se destaca em nada. É o tipo de lugar do qual poucos moradores saem e ninguém de fora entra. Foi por sorte que descobri sobre ela!”
 “E o que tem?”, perguntei. Sabia que ele falaria em seguida, independente de minha pergunta, mas pareceu apropriado para mostrar que estava prestando atenção.
 “Ela chamou minha atenção pela lenda de sua criação, a princípio. Dizia que ali habitava uma tribo indígena bastante peculiar, embora eu não saiba ainda o porquê dela ser considerada assim. Segundo o material que eu li, os sacerdotes da tribo entravam em certo tipo de transe quando se sentavam de frente ao mar para meditar e às vezes ficavam lá por dias, parados, sem comer nem beber nada.”, ele seguiu explicando. “Era chamada de Meçuú, mas o nome foi traduzido durante a época da ditadura militar”.
 Olhei para ele esperando que dissesse mais alguma coisa, mas eventualmente percebi que essa era a história toda que ele contaria por enquanto.
 “E o que há de curioso nessa história? Parece bem comum, se me perguntar.”, eu disse, sabendo que ele só estava esperando essa pergunta para revelar o fato mais importante.
 “Aí é que está!”, ele exclamou, animado. “O segredo está no nome da cidade. Meçuú. Eles a chamavam assim, mas quando pesquisei também se referiam a ela como Maçeuú ou Masseuú que podem ser traduzidos como olhos amaldiçoados.”
 “Então a cidade sofre com a maldição de alguma tribo indígena que foi dizimada pelos conquistadores europeus?”, perguntei, nem um pouco surpreso com aquela lenda. Devido à história de colonização do nosso continente, era o tipo de lenda que se
espalhava por quase todas as cidades, principalmente as pequenas onde o povo era mais propício a esse tipo de crendice.
 “Não, por incrível que pareça.”, ele falou com o sorriso se alargando em seu rosto. “Eles conviveram em harmonia e aos poucos foram misturando as etnias até praticamente todos serem descendentes tanto de indígenas quanto de europeus. Até onde investiguei não há sangue manchando a história da cidade.”.
 “Sem sangue, hein…”, repeti, descrente.
    ***
 Dois dias depois nós partimos para a tal cidade. Fomos no carro de Abraão, que tinha tração nas quatro rodas e assim era melhor que o meu sedan para ficar rodando pelas estradas do interior.
 O caminho foi agradável, tínhamos gosto musical parecido e a região não era quente então pudemos andar com as janelas abertas até certa hora, quando os mosquitos começaram a importunar de tal forma que não era mais possível aproveitar o vento agradável do veículo em movimento.
 A vista do campo era, sob certo aspecto, calmante. Tudo parecia tão novo e inexplorado que por um momento me senti de novo como uma criança, querendo correr por cada metro de grama e procurar por passagens escondidas e outras novidades da floresta. Me contentei em explorar com meus olhos enquanto conversava sobre assuntos aleatórios com meu amigo de infância que dirigia.
 Quando o relógio marcou meia noite, decidimos parar o carro ao lado da estrada para descansar. Abraão não queria, estava ansioso demais e por um momento eu pensei em dirigir durante a noite para fazer-lhe esse agrado, mas me parecia mais seguro dormirmos os dois. Estávamos muito longe de qualquer civilização, ou pelo menos assim aparentava, e tinha certeza de que era melhor estarmos ambos bem acordados e descansados quando continuássemos a viagem para que pudéssemos contornar qualquer eventualidade.
 Levou um tempo para vencê-lo na discussão, mas finalmente consegui e assim paramos em cima da grama que margeava o caminho de terra, a alguns metros de distância, claro, para evitar acidentes. A noite ali era completamente escura e os faróis sozinhos faziam um trabalho muito precário, portanto qualquer carro que passasse poderia nos acertar por acaso se ficássemos muito perto da pista e isso seria um grande infortúnio.
 Demorei bastante para dormir imerso naquele silêncio desconcertante. Fiquei ali, olhando a janela entre mim e as estrelas que brilhavam mais forte do que eu me lembrava de já ter visto na minha vida. Parecia até que estava em outro planeta. Não cheguei a perceber quando adormeci.
 Sonhei com dois olhos sem silhueta me observando, como se toda a escuridão infinita fosse um corpo. Fixos em mim, aqueles dois círculos não brilhavam, eram vazios, e mesmo assim transmitiam uma emoção forte e indescritível. Me prendiam, me puxavam, me rasgavam de uma ponta à outra e expunham o que havia dentro. Eram desagradáveis.
 Acordei um pouco exaltado, sentando como uma reação involuntária. Minha cabeça raspou no teto do automóvel, mas mal reparei, porque agora estava acordado e mesmo assim os olhos ainda estavam lá, penetrantes, atrás do vidro do carro.  
 Mantive o autocontrole enquanto olhava fixo para o que quer que aquilo fosse, com meus olhos bem abertos, talvez até arregalados, fazendo força para mantê-los atentos a qualquer movimento, até que não aguentei mais e pisquei.
 Nessa fração de segundo eles desapareceram sem deixar qualquer sinal de sua presença senão o frio na minha espinha.
 Fiquei em dúvida se deveria sair para investigar. Não queria acordar Abraão que roncava em um sono profundo, mas eu me sentia inquieto. A impressão causada por aquilo tudo era forte demais.
 Por fim, decidi estivar meu braço e acender os faróis do carro. A luz forte surgiu iluminando com tamanha intensidade como só é possível naquele tipo de escuridão. Dava para enxergar não só um bom pedaço à frente como um pouco para os lados também, mas não havia nada além de grama.
 Observei atento a barulhos e movimentos, mas nenhum estímulo chegou aos meus sentidos. Depois de vários minutos de tensão estática, desliguei de novo as luzes do carro, inconformado.
 Não consegui dormir de novo naquela noite e quando finalmente meu companheiro de viagem acordou, já estava exausto de esperar. Não expliquei de imediato o que havia acontecido, precisei dormir primeiro. As reclamações e protestos do outro ocupante do automóvel desapareceram quase que instantaneamente enquanto minha consciência se esvaía.
 Dessa vez não sonhei. Só dormi, sem qualquer noção de tempo, até que acordei finalmente. Vi no relógio que só haviam se passado seis horas e estava na hora do almoço. Aproveitei a pausa para contar a minha história noturna.
 Ele pareceu um pouco surpreso a princípio, mas aceitou muito bem os fatos que narrei. Muito melhor do que eu esperava que fosse.
 “Messauú.”, ele disse, depois de pensar um pouco.

Uma Nova Chamada

Então, estou de volta aqui no cantinho. Fiquei tempo demais sem postar para quem tinha prometido postar semanalmente não é? Fazer o que… São ossos do ofício… (não me perguntem de qual ofício, porque eu também não sei).

De qualquer jeito, finalmente tenho uma ideia de história para postar, por isso vou deixar algo aqui para vocês. Espero que curtam (e q n tenham visto algo parecido em algum lugar, isso seria péssimo XD)


Tiago acreditava que a maior sorte de sua vida seria quando sua amiga de infância e paixão, Helena, finalmente anuncia que vai voltar da Inglaterra, aonde cursava a universidade.No entanto, pouco antes dela chegar, assim que seu celular pára de funcionar, ele é sorteado na internet para ganhar um aparelho de uma linha nova, edição limitada de quatro modelos, batizados de Navegador, Rastreador, Hacker e Criador.

Agora em suas mãos estava um telefone que, para sua surpresa, podia ligar para qualquer outro celular do mundo, sem precisar digitar o número por uma tarifa de um real por ligação, e pelo que o manual dizia, também podia se conectar a qualquer rede, sem precisar de senha ou qualquer código de segurança, ou seja, o Navegador.

Embora descrente, Tiago não se acanha e logo testa o novo aparelho, que cumpriu cada detalhe do prometido. Era até melhor do que parecia!

No entanto, logo ele descobre algo que não deveria. Ele invade a rede criada pela pessoa que ganhou o Hacker e descobre um plano terrorista sem igual, e só então percebe como aquele celular poderia ser perigoso. Sem saber como impedir isso, ele liga para a Presidente da República tentando avisar, mas acaba atiçando a curiosidade deles quanto a como tinha conseguido fazer aquela ligação.

Sendo perseguido de todos os lados, Tiago não vê outra saída senão mergulhar mais fundo nesse mistério, encontrar o Hacker e seus companheiros e, quem sabe, impedir que alguma tragédia sem precedentes acontecesse.

Não percam, com sorte semana que vem “Uma Nova Chamada”!!!


E é isso pessoas, espero que curtam o resumo que fiz e voltem pra ler o 1º capítulo!
Fico por aqui essa semana!

Hospital – pt 2

Corri.
E assim cheguei onde eu estava agora, pronto para voltar para o hospital. Talvez pronto não seja o termo certo. Sabia que tinha que voltar, mas estar pronto era outra história completamente diferente.
Pensei em Natália. Quem sabe a ajuda já não estava a caminho? Qualquer pessoa, algum tipo de resgate. Será que é muito estranho um pré-adolescente como eu desejar algo assim? Uma situação dessas faz a gente perceber que por mais que queiramos parecer independentes e adultos, nós ainda não somos mais do que simples crianças.
Mas algo me dizia que ninguém viria, e mesmo eu tentando ignorar esse algo ao máximo que eu podia, ele foi suficiente para me fazer andar de volta para o prédio abandonado e buscar um jeito de sair sozinho.
Cada passo parecia tomar toda a energia do meu corpo.
Até que cheguei. Fiquei parado encarando aquele monstro, aquele gigante de concreto, por vários minutos, como se eu esperasse que ele se levantasse e educadamente me desse passagem, mas ele ficou parado me desafiando. “Entre”, ele dizia, “Sinta-se em casa!”.
Respirei fundo e aceitei o desafio. Entrei.
O prédio continuou o mesmo, acabado e velho, e eu liberei um suspiro de alívio. Agora que eu estava aqui dentro, me veio à cabeça que eu poderia procurar mais uma vez pelos oito desaparecidos.
Alguém procuraria na minha situação? Digo, se tem um ser humano nesse mundo que faria isso, faço questão de reverenciá-lo depois que ele provar o feito, mas eu não era esse ser humano e por isso corri para a outra porta. Já tinha visto demais pra uma noite. Derrubei várias cadeiras e outras coisas que heroicamente haviam conseguido se manter de pé ao longo dos anos, até finalmente alcançar meu destino.
Que continuava trancado.
Recostei em uma parede e me deixei escorregar para o chão, as mãos no rosto, finalmente chorando. Quando reabri os olhos a sala estava agora nova e iluminada. Berrei mais alto do que jamais achei que pudesse. Chutei as paredes e a porta de vidro, quebrando-a.
-Meu Deus… Deus! – eu chorava – Eu quero sair daqui… Deus, me tira daqui!
-O que você tem? – perguntou uma enfermeira se aproximando de mim. Eu berrei mais alto ainda, me sacudi, me debati, soquei, chutei, até que o cenário voltou ao normal, decrépito e semi-destruído.
Me encolhi de novo, tapando os ouvidos e os olhos fechados firmemente, chorando.
Então algo me tocou.
-Tiago!
-João? – eu reconheci a voz, enquanto levantava a cabeça para olhá-lo.
-Sim, sou eu!
-Eu também estou aqui. – disse a voz de Cristina.
-O que aconteceu? – perguntou João.
-Eu estou ficando maluco.
-Conte-me. – disse ele, e eu contei tudo, desde Natália, até o velho no quarto. Contei sobre como corri e sobre como a entrada se iluminou e o vidro se quebrou. E eles me ouviram desabafar, e quando terminei, João começou a falar do que aconteceu com eles. – Do nosso lado foi um pouco diferente. Quando você entrou pelo buraco na parede você sumiu. Esperamos em cima da cama até há pouco tempo, quando decidimos sair e procurar por alguém, e assim chegamos aqui, onde encontramos você.
-Como pode? Já passaram horas desde que eu me separei de vocês… Não podem ter esperado esse tempo todo lá!
-Na verdade… Foi pouco mais de meia hora, Tiago… – disse João.
-Eu não agüento mais isso… – eu reclamei.
-Eu também não! – exclamou Cristina.
-Vocês dois querem parar com isso! Tiago, sinto dizer, mas eu não posso assegurar que você não estava alucinando, porém, não acho que você estivesse. Olhe para a porta de vidro. Calma, eu sei que ela está inteira, eu quero que você me diga o que está vendo do outro lado. – eu olhei, e olhei com atenção redobrada, mas não vi nada.
-Ah! Eu não vejo nada… – disse Cristina.
-Eu também não… – concordei com ela.
-Como não?! O chão está todo cheio de cacos…  – e eenquanto falava ele desapareceu. Simplesmente isso. Sumiu. Foi por quase um piscar de olhos, mas ele desapareceu em pleno ar e tão repentinamente ele reapareceu. – Eu… Eu vi a sala que você descreveu… E a porta quebrada….
-Você sumiu daqui. Foi por pouquíssimo tempo, mas sumiu.
-Pouco tempo? Eu devo ter ficado no mínimo umas duas horas lá!
-Eu estou com medo! – interrompeu Cristina, se agarrando ao meu braço, o que, apesar de toda aquela situação, me deixou um pouco sem jeito. No fim das contas, por mais amedrontado que eu estivesse, ainda era um pré-adolescente entrando na puberdade, e aquele braço tocando todo o corpo dela desde o peito até pouco abaixo da cintura passou a ter o tato mais apurado na face do planeta. Que atire a primeira pedra aquele que nunca passou por essa fase!
-João… – comecei a frase, mas não cheguei a terminá-la, porque a pessoa a quem eu ia me dirigir já não estava mais ali.
-Cadê ele? – Cristina perguntou.
-Eu realmente queria saber… Já estou cansado demais disso! Espero que esteja bem, assim como espero que todos saiamos ilesos de prédio maldito!
E então nós recomeçamos a andar. Pensei em deixá-la sentada em algum lugar, para evitar maiores traumas, mas estou certo de que se o fizesse não ia mais vê-la, assim como achava que jamais falaria de novo com João e Natália. Porém eu não estava afim de levá-la de volta para o banheiro cheio de sangue, onde eu queria investigar melhor. Não me ocorria mais nada a fazer a não ser procurar por mais alguém dos grupos.
E agora?
Olhei para Cristina, que mantinha a cabeça grudada no meu braço e tentei descobrir algum sinal de o quanto faltava para ela alcançar o limite. Ia me sentir muito culpado se sofresse um colapso nervoso por minha culpa. As pessoas dizem que o medo faz as emoções de alguém ficarem mais fáceis de se ler, mas para mim aquilo era impossível. Eu era uma completa negação para entender o que ia dentro do coração dos outros, em qualquer situação que fosse. Então resolvi perguntar.
-Você acha que agüenta mais um choque?
-O quê? – respondeu ela me olhando com o que parecia ser a ameaça de novas lágrimas.
-Eu queria voltar até os banheiros aqui do térreo. – “Ah, droga, por favor não responda que não quer ir!” eu pensei, mas sentia ali no fundo uma pequena esperança de que ela dissesse que não queria ir, para eu poder desistir daquilo e ficar ali.
-Eu… – ela começou, hesitante – Eu acho que consigo.
-Você está considerando também qualquer coisa que possamos encontrar lá, né?
-Espero encontrar todo mundo lá rindo da nossa cara. – ela falou, forçando um risinho tremido.
-Eu também.
E assim continuamos até o banheiro, que estava escuro como antes, e com forte cheiro de ferro chegando às minhas narinas. Apontei a lanterna para a entrada, logo em frente aos meus pés, e fui subindo.
O chão negro virou vermelho e voltou a ser negro conforme a esfera de luz ia andando pelo cômodo, até iluminar algo que não estava ali antes.
Eram do outro grupo! Pessoas!
Bruno estava deitado no chão, enquanto Helena sentada em cima do quadril dele, deixava a cabeça frouxa, jogada para trás. E eles eram dois corpos sem vida, sujos do branco cadavérico que infectava aqueles que nunca mais acordariam. Desliguei a lanterna bem rápido, tentando evitar que Cristina visse aquilo.
-O que foi? – ela perguntou.
-Não sei, acho que… É a pilha. – minha voz falhou no meio da frase, mas acho que ela interpretou aquilo como se eu não tivesse certeza de qual era o problema.
-Você chegou a ver algo no banheiro?
Olhei de novo para a escuridão onde eu tinha visto os dois.
-Feche os olhos e conte até vinte. – eu disse, de repente.
-O quê?
-Feche os olhos e conte até vinte. Quando você abrir os olhos eu vou fazer uma mágica. – falei, e ela me obedeceu.
-Um, dois, três, quatro, cinco, seis,… – acendi a lanterna e olhei para os corpos. Subi um pouco mais a luz e vi escrito com sangue na parede “VIVA LA VIDA”. Embaixo das letras um espelho refletia os olhos vidrados de Helena, que embora não estivessem virados diretamente para mim, pareciam me encarar condenadoramente. -…, doze, treze, quatorze, quinze, … – apaguei a luz, concluindo a procura -…, dezenove e vinte.
-Tcharans! – falei, fazendo uma cara incrivelmente inocente e o infame truque de retirar o dedo. Não sei como, mas até que funcionou, pois Cristina riu.
-Você é muito bobo.
-Acho que sim. Vamos embora. – eu não queria olhar de novo para aquela cena, embora eu ache que a ficha ainda não tivesse caído. Ou talvez fosse a responsabilidade de ter que cuidar de alguém que estivesse me mantendo são.
Fomos para a recepção e nos sentamos nas cadeiras, as mesmas que eu tinha sentado com Natália, o que parecia ter sido há uma eternidade inteira atrás.
E então tudo mudou. Estávamos novamente na sala nova, com uma recepcionista atrás do balcão e médicos e enfermeiras passando. Cristina voltou a chorar e eu fiquei quieto olhando para o chão. Ela continuou agarrada ao meu braço, e acho que como eu, ela tinha medo de que se nos separássemos, um ou outro ia sumir para sempre. Abracei-a forte, confortando aquela dor que anestesiava meu próprio sofrimento.
Ficamos assim por muito tempo, ou pelo menos foi o que pareceu, ignorando qualquer um que nos abordasse. Pensei quanto tempo mais nós teríamos que passar por isso, quanto tempo mais teríamos que sofrer todo aquele inferno.
Levantei a cabeça quando ouvi uma cama sendo arrastada, junto com os gritos de vários médicos. Olhei para o paciente na cama, e me assustei, porque ali estava deitado Bernardo, com os olhos fixos e arregalados, sendo levado para a sala de operações.
-Ber… – comecei a falar, mas enquanto olhava aquilo, me dei conta de que não adiantava, pois mesmo que ele estivesse vivo, sua alma já não estava mais ali dentro. Aqueles olhos me chocaram tanto quanto os de Helena e Bruno, talvez até mais, já que aquele era um corpo vivo e sem alma, diferente dos dois mortos, que era normal não a terem.
Apertei um pouco mais Cristina nos meus braços e mergulhei meu rosto nos cabelos dela. Eu não ia chorar enquanto ela estivesse aqui para soltar lágrimas suficientes para nós dois.
Quando levantei a cabeça estávamos de volta no prédio abandonado, cercados de poeira e medo. E ficamos assim, até que vi algo se mexer perto de uma das portas que davam acesso ao grande salão de recepção. A essa altura eu já estava bastante assustado, e não tive coragem para me levantar e ir ver o que era. Ia ser pior quando eu chegasse lá e encontrasse simplesmente um corredor e vários cômodos vazios. Mas então Eduardo entrou no meu campo de visão.
-Eduardo!
-Tiago?
-Sou eu! A Cristina está aqui comigo!
-Você… Vocês estão bem? Ai meu… Meu Deus! Isso é um… Um pesadelo… Você viu o banheiro? O Bruno e a Helena estão… Estão…
-Eu vi. – interrompi ele.
-Meu… Meu Deus…
-Calma, venha sentar aqui. – eu convidei, e ele caminhou lentamente, quase que hesitante, demorando o dobro de tempo normal para andar aquela distância e se sentou do meu lado.
-E os outros?
-Shh… – eu disse, e apontei para Cristina, que tinha dormido nos meus braços naquele meio tempo. – Fale baixo.
-Como ela pode dormir nessa situação?!
-Cansaço. Ela deve estar exausta, portanto já que ela conseguiu, vamos deixá-la descansar o máximo possível.
-Tá, mas e os outros?
-Você parece que já viu Helena e Bruno, então eu vou continuar das piores notícias para as não tão ruins. Bernardo parece que teve um ataque e foi levado pelos médicos…
-Que médicos?
-Você não passou por isso?
-O quê?
-É como se a gente voltasse no tempo, ou fosse para outra dimensão, e lá o hospital ainda funciona, aliás ele acabou de abrir.
-Pare de brincadeiras! Eu já estou assustado, não precisa piorar as coisas!
-É sério. – eu falei, e alguma coisa nos meus olhos não deixou que ele questionasse mais. Simplesmente acreditou.
-Ai meu Deus!
-Continuando, João desapareceu, mas ele estava bem da última vez que o vi, e Natália conseguiu sair para buscar ajuda.
-Ela o quê?
-Foi buscar ajuda.
-Por que eu não pensei nisso antes?
-Não adianta, as portas não abrem mais.
-Emperradas?
-Duvido. Eu acho que…
-Por favor não diga isso.
-O que?
-Seja lá o que for, não complete essa frase.
-Tá…
-E agora? Vamos até a porta?
-Não sei. Acho que sim. Cristina, acorda.
Tive que sacudi-la, um pouco até ela acordar, mas finalmente estávamos de pé e caminhando para a porta.
-Ei Cris, por que você está agarrada assim no Tiago? – perguntou Eduardo, o ser mundialmente famoso por soltar as frases erradas nos piores momentos.
Eu e Cristina ficamos sem jeito, e olhamos um para o outro. Nisso ela quase soltou meu braço, mas eu segurei o dela.
-Ela está com medo, deixe-a em paz, Eduardo. – eu disse num tom severo.
-Perdão. Eu só não sabia o que falar, e o silêncio estava me incomodando…
-Você podia ter falado de música! – sugeriu Cristina.
-Não tem clima pra começar uma conversa casual como essa…
-Acho que o único clima que tem agora é para contar histórias de terror, e eu já estou de saco cheio de terror, então esqueça o clima. – eu retruquei.
-Ah, bem, então alguém viu o filme que passou ontem na televisão?
-Eu vi. – respondeu Cristina – Era sobre os fantas…
-Eduardo, é melhor você ficar quieto, porque ainda não deu uma dentro…
Ele pareceu meio triste, mas logo se animou de novo e começou a andar na nossa frente, e consequentemente foi o primeiro a alcançar a porta. Girou a maçaneta e empurrou, e a porta se abriu.
-Voilá! E o Grande Dudu faz sua saída triunfal! – disse ele correndo para fora. Seguimos ele, sorriso nos rostos, felizes por ver uma luz no fim do túnel.
E então desabou. Um pedaço enorme de concreto de quase um palmo de grossura desmoronou, parte do que antes formava a marquise que protegia a entrada da chuva, certinho onde Eduardo estava. Voou sangue para todos os lados, e por pouco não fomos lavados de vermelho. Por sorte estávamos temporariamente protegidos pelo vidro da porta, que tomou o banho em nosso lugar.
Cris começou a berrar, histérica, e eu não sabia mais o que fazer. Será que devia nos arriscar e tentar sair? Ou era melhor voltar? Mas como nós íamos ficar ali dentro com ela naquele estado? Comigo naquele estado?
Na verdade eu ainda estava pensando isso, e nem me dei conta de que eu tinha segurado Cristina pelos ombros e a estava beijando.
Pára tudo. Eu gosto da Natália, não? Não? Alguém por favor me explica, porque eu não estou entendendo mais nada! Mas eu estava gostando daquele beijo, e não foi só por ele acalmar Cristina. Acho que essa noite mudou muita coisa dentro de mim. Dentro dela também.
De certa forma, agora eu sabia que tudo daria certo, que sairíamos dali. Juntos e salvos.
E então Cris tossiu, e eu senti o gosto do sangue que subiu pela garganta dela. Abri os olhos a tempo de vê-la desabar no chão.
Morta.
Não tive forças nem para gritar, pelo menos por um tempo. Simplesmente não acreditei. Depois de um tempo ali parado, esperando ela se mexer de novo, eu finalmente me dei conta de que aquilo não era mais uma das ilusões do hospital, era real, e eu chorei.
-Chega… Você ganhou… Eu desisto… – falava, com as mãos na cabeça, agarrando meus cabelos – Não ouviu? VOCÊ GANHOU!
Eu berrei por muito tempo, até não sair mais voz nenhuma das minhas cordas vocais, e depois continuei chorando em silêncio.
E quando minhas lágrimas pararam de sair, a porta se abriu.
Saí cambaleando, mal tinha forças para me manter de pé. Escorreguei no sangue de Eduardo e caí de cara no chão. Não sabia se o vermelho no meu rosto era do chão ou se saía do meu nariz que doía. Me levantei e continuei me arrastanto.
Passei por um buraco onde aparentemente o chão tinha cedido e caído em alguma galeria de esgoto ou águas pluviais, mas não dei atenção. Só desviei e continuei até o portão de entrada, que consegui abrir sem problemas. Estava livre.
Mas que sentido poderia ter essa liberdade agora que minha própria mente era minha prisão?
Eu estava finalmente na rua principal, fora do hospital, ouvindo o barulho dos motores dos carros e de suas buzinas.
Vi dois faróis altos na minha cara e ouvi pneus cantando. Foi a última coisa que meus sentidos cansados me transmitiram.
Não havia nem a dor.
Só a liberdade. Enfim, a liberdade.

Hospital – pt 1

Ok pessoal, esse foi um dos primeiros contos que postei aqui no blog. Agora vou postá-lo de novo com algumas coisinhas revisadas!
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Corri.
Eu estava apavorado. Olhei para trás e não vi ninguém, nem aquilo que me apavorava, nem meus amigos. Naquele momento eu me lembrei de todos os inúmeros personagens de filmes, séries e livros que parariam para enfrentar qualquer coisa pelos amigos, mas eu só tinha treze anos de idade e nada nesse mundo me faria parar.
E afinal, de quem foi a maldita idéia de entrar naquela droga de hospital? Ah… Mas antes parecia excelente! Um teste de coragem, e a maravilhosa chance de conquistar o coração de minha amada Natália. Aliás tudo começou a dar errado ali. Existe coisa mais frustrante do que armar todo um esquema assim e não conseguir ficar no mesmo grupo que a garota? No entanto… Não acho que isso tenha qualquer relação com o que veio depois mesmo, então deixa para lá.
Nos dividimos em dois grupos de cinco pessoas, e entramos cada um por uma das duas entradas, uma de frente para a estrada que levava à cidade e a outra para um grande campo verde, que também levava para a cidade. O hospital em si já estava há muito tempo abandonado. Ele não durou muito depois que construíram um mais novo e mais moderno próximo aos centros comercial e o residencial da cidade.
Sempre correu o boato de que enquanto ainda funcionava, vários pacientes, sempre os em estado terminal, afirmavam ver coisas que ninguém mais conseguia. Teve até uma vez em que um médico ficou louco e começou a correr nu pelos corredores do hospital. Ele não feriu ninguém, mas vários registros contam que sua loucura não era comum. Ela tinha surgido do nada, em alguns minutos, e depois, quando ele foi analisado no manicômio, mostrou vários sintomas complexos demais para eu entender, e pelo visto pros médicos também já que nunca chegaram a um diagnóstico. Me lembro de ter ouvido uma vez também sobre quando a porta de entrada, que era de vidro, se quebrou sozinha sem deixar um caco na armação. Tudo se espatifou no chão.
E assim, finalmente consegui parar e respirar. Olhei ao redor. Eu tinha corrido desesperado por não sei quantos metros e agora estava bem perto da grade que cercava o terreno, mas para o meu terror, era a grade do lado errado. Com o medo subindo à cabeça, nem prestei atenção para onde ia e em vez da rua principal, eu via um grande campo com grama alta, o que significava que em vez da saída eu tinha ido para os fundos do hospital, e ali com certeza nunca  que encontraria nenhum sinal de vida humana.
Lembrei do grupo que fiquei quando entramos: Bernardo, Cristina, Andréia e João. Correr tinha me acalmado um pouco, mas agora a visão do gramado infinito tinha reacendido a fagulha do medo. Não tinha lugar nenhum para eu me recostar, para proteger minhas costas, e a sensação de que a qualquer momento algo chegaria por trás me atormentava. Era como se seja lá o que fosse aparecer já estivesse ali atrás de mim, esperando o melhor momento para dar o bote.
Pelo menos agora eu tinha duas rotas de fuga, embora uma fosse tão terrível quanto a outra. Podia correr pelo campo até achar alguma civilização, ou podia refazer o caminho pelo hospital, até o outro lado.
Era uma escolha terrível, mas não precisei pensar por muito tempo. Ou pelo menos acho que não foi… Não consegui ficar mais tempo parado pensando depois que ouvi aquele grito.
Talvez fosse só um animal, o que, se eu estivesse calmo o suficiente para pensar, não teria sido nem de perto a opção mais improvável,  mas no meio do medo e escuridão que eu estava imerso, qualquer coisa parecia o pior possível.
Eu tinha que decidir, e foi o que fiz. Optei por voltar pelo hospital. Eu estava me cagando, mas uma vez que eu passasse pelo prédio, era só correr que eu estaria seguro, enquanto se me arriscasse pelo campo, podia me perder. A grama era bastante alta, e embora eu nunca tivesse visto nenhuma, diziam que ali tinham muitas cobras. Me espantei com esse nível de racionalidade, porque mesmo em situação normal poucos garotos de treze anos pensariam assim. Pelo menos os que eu conheço nunca teriam. Acho que o medo acionou alguma engrenagem na minha cabeça.
Mas mesmo chegando a essa conclusão, eu realmente não queria voltar para o hospital! Lembrei do momento em que Bernardo e Andréia sumiram. Por incrível que pareça, eles disseram que iam ao banheiro e lá foram, antes mesmo que a gente pudesse protestar. Se realmente bateu a vontade ou os dois estavam só querendo uma desculpa para ficar sozinhos, eu não sei, só sei que não estavam lá quando fomos verificar o por que de estarem demorando tanto.
Claro que poderiam ter se perdido no caminho de ida ou volta. Foi realmente o que eu pensei, afinal ninguém do grupo já tinha entrado ali, muito menos sabiam onde ficava um cômodo tão específico como um banheiro (na hora não me ocorreu que se eles estavam tentando ficar sozinhos, não ia importar muito qual lugar entrassem, desde que estivesse vazio).
No entando, depois de alguma procura nós finalmente encontramos algo que supomos ser um banheiro, já que embora estivesse tão escuro que não enxergávamos nada, o chão estava alagado com algo e sentíamos cheiro de ferro que só podia estar vindo de encanamento velho e enferrujado. Até há pouco a luz da lua entrando pelas janelas tinha sido o suficiente para andarem pelos corredores mais amplos, então estávamos economizando a pilha das lanternas, por isso ficamos ali no escuro por algum tempo antes de termos a brilhante ideia de acender uma para ter uma noção do que estava a nossa volta.
Bem, não foi realmente uma ideia brilhante. Assim que acendemos uma das lanternas, a luz revelou que aquilo realmente era um banheiro e que a água que o alagava era estranhamente vermelha. E o cheiro! Ferro eu tinha dito, e realmente era ferro, mas nem de perto o que esperava. Os canos velhos e enferrujados estavam ali, mas não era deles que vinha aquele cheiro tão característico. Agora sim, eu reconhecia como ele era. Sangue.
Cristina gritava histérica, e eu vomitei. João tentou ligar para os celulares de Bernardo e Andréia, mas estavam desligados ou fora da área de cobertura. Eu não sabia se eles tinham chegado a entrar ali naquele banheiro, mas tinha certeza de que não tinham saído. Não haviam pegadas no corredor, fossem molhadas ou secas.
Decidimos procurar o outro grupo. Aquilo já não era mais uma brincadeira. Alguma coisa sinistra tinha acontecido ali, não importa daonde tinha saído aquele sangue. O fato de ser sangue já era macabro o suficiente!  Mas não importava o quanto a gente procurasse, não encontramos ninguém, mesmo rodando todo o andar térreo, que era onde tínhamos combinado de ficar, já que os andares superiores estavam bastante comprometidos pela ação do tempo.
Foi então que João cutucou meu braço, apontando para algum lugar. Ele disse ter visto algo ali, uma sombra ou coisa do tipo, e fomos até lá, apenas para encontrar um quarto vazio, com um leito empoeirado.
-Por que viemos aqui? – perguntou Cristina chorosa.
-Nada, só achei que ainda não tínhamos visto essa sala. – disse João, escondendo o fato de ter visto uma sombra da já apavorada Cristina – Mas claramente está vazio. – e se virou para ir embora.
-Espere. – eu disse subitamente – Ouvi alguma coisa.
Andei pelo quarto sem fazer qualquer barulho, dando pancadinhas nas paredes e escutando com atenção, até que cheguei a uma parte da parede que me pareceu estranha. Bati umas vezes mais para confirmar e ouvi um som oco, seguido de outro som parecido com o de antes.
-Me ajuda aqui João. – disse enquanto me posicionava ao lado da cama, que como em todos os hospitais, tinha rodinhas. Empurramos um pouco para o lado e posicionamos em frente à parede, só que do outro lado do quarto. Tomamos fôlego e empurramos no três.
A cama se chocou contra a parede atravessando-a, e no mesmo instante ouvimos um berro histérico, desesperado, vindo de dentro do cômodo. Olhamos ao mesmo tempo para Cristina, mas ela estava quieta tremendo em um canto. Viramos para a parede quebrada e eu subi na cama, seguido por João, e engatinhei através do buraco. Estava escuro ali, e pouca era a luz que chegava a entrar pela entrada improvisada que fizemos, por isso acendi minha lanterna e iluminei o espaço enquanto passava pela parede.
Lá dentro estava a figura encolhida de Natália.
Demorei um pouco para acreditar que era ela, pois estava toda suja de pó e descabelada, abraçava os joelhos e chorava, gritava para eu me afastar, e quando cheguei perto ela tentou me acertar.
-Natália. Natália! Sou eu! – tentei acalmá-la, segurando seus braços. Ela se debateu por mais algum tempo antes de se cansar e começar a soluçar um choro fraco.
Abracei-a.
Ela chorou mais ainda, e eu a ajudei a se levantar e a caminhar para fora daquele lugar apertado, de volta para o quarto onde João e Cristina nos esperavam, ou deviam estar nos esperando, porque não estavam.
Decidi não falar nada, já que Natália já estava suficientemente desesperada sem eu dizer que duas pessoas tinham acabado de sumir. Saí o mais rápido possível daquele quarto e nos sentamos perto de uma recepção, naqueles bancos alinhados em fileiras onde as pessoas esperavam sua vez. Ali esperei ela se acalmar.
-Natália, onde está o resto do seu grupo?
-Eu… Não sei… – ela disse entre soluços.
-O que aconteceu?
-E… eu… nós entramos no quarto e eu fui ver naquele cômodo anexo, aí tudo ficou escuro e a porta tinha sumido! – ela respondeu, nem um pouco mais calma – E c… Com o seu g… Grupo?
-Err… Na verdade eu também não sei… Bernardo e Andréia sumiram quando foram ao banheiro e João e Cristina desapareceram enquanto eu te tirava de dentro da parede. – respondi, e achei melhor não mencionar o lago de sangue no banheiro. Só a desesperaria mais, e não me ajudaria em nada.
-Eu estou com medo. – disse ela, recomeçando a chorar.
-Eu também.
-Tiago…
-Oi? – respondi, assustado por ela ter usado meu nome tão subitamente.
-Eu quero sair daqui. – ela disse, enfiando a cara no meu peito. Eu fiquei ali paralizado enquanto sentia a minha camisa molhando.
-Vamos. Lá fora procuramos alguém para nos ajudar a procurar os outros.
-Sim.
Mas continuamos parados ali por mais algum tempo, eu olhando para cima e ela chorando no meu peito. Não sabia como classificar a situação. Não era o que eu tinha planejado no início? Não, não era. Agora estava tudo errado. Mas eu estava gostando. Era bom tê-la assim tão frágil nos meus braços. Mas estava mesmo tudo errado…
Então algo estourou à minha direita. Olhei para o lado e não vi nada. Me levantei devagar e senti que Natália me acompanhou, por isso fui recuando devagar junto dela, um passo por vez, para longe da direção do barulho.
Conseguimos chegar até a grande porta de entrada assim.
-Corre, vai. – falei para Natália, que estava atrás de mim, entre eu e a porta.
-Mas…
-Vai, anda!
E ela correu.
Não que eu estivesse bancando o corajoso ou o que, mas ela estava claramente à beira de um ataque de nervos, e isso não seria bom.
Me virei e tentei correr também, mas a porta só sacudiu travada no lugar. Estava trancada. Recuei um passo hesitante e olhei Natália correr pelo pátio, na direção do portão. Tomara que ela chegasse lá, porque nós estávamos realmente precisando de ajuda.
Uma porta bateu atrás de mim com um estrondo, mas quando olhei todas as quatro estavam abertas. Voltei por onde eu vim, e comecei a procurar por qualquer sinal de qualquer ser vivo. Qualquer um que fosse, qualquer coisa que pudesse me acalmar, me dar algum conforto. Agora que eu parei para pensar nisso, reparei que era realmente estranho eu ainda não ter visto nenhum rato, morcego ou inseto que fosse. Nem um ser vivo. Aliás, nem morto. Nada.
E silencioso.
Escuro e silencioso.
Andei a esmo por um tempo, visitando quartos aleatórios, olhando as paredes e o chão. Não achei nada nem ninguém. Estava prestes a voltar para a porta de entrada quando vi uma luz. Por um minuto pensei ser uma lanterna, mas logo ficou claro que era uma luz de teto. Caminhei até lá, com cuidado, e olhei pelo portal.
Lá dentro estava um quarto novo em folha, bem iluminado, limpo e com um paciente deitado na cama. Como aquilo podia estar ali?
-Quem é você? – perguntou o velho.
-Você… Você realmente está aí?
-Por que não estaria? Estou aqui há mais tempo do que queria… E acho que ainda vou ficar por mais algum tempo.
-Esse hospital devia estar abandonado há mais de vinte anos! Um quarto novo com esse com um paciente só pode ser algum tipo de alucinação!
-Para mim você não parece estar alucinando.
-Só posso estar!
-Então pelo menos você está no lugar certo, porque é em um hospital que se tratam pessoas com alucinações.
-Não!
-Sim! E esse é o melhor. Abriu há pouco tempo, tecnologia novíssima.
-Acabou de… – e olhei para o calendário na parede, datando de mais de cem anos atrás.
-Pela sua cara, agora sim você parece mal.
-Com quem o Sr. está falando, Sr. Silva? – disse uma enfermeira que apareceu do nada na minha frente, como que vinda de outra dimensão.
-Oh, um jovem ali fora da porta, que diz que esse hospital está fechado há mais de duas décadas!
-Ora Sr. Silva! Não tem ninguém lá fora! Pare com essas brincadeiras, o senhor sabe que eu não gosto dessas coisas assustadoras. Eu tenho medo!
-Mas como não tem ninguém? Eu o vejo logo ali!
-Olhe bem, agora passou um médico ali, mas não vejo nenhum jovem.
Não agüentei mais isso. Era surreal demais para ser real.
Corri.